quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

A morte não está nem aí para nós

A morte não está nem aí para nós (Arnaldo Jabor)


Meu avô me disse uma vez: "Acho triste morrer, seu Arnaldinho, porque nunca mais vou ver a Avenida Rio Branco…" Isso me emocionou, pois ele ia diariamente ao centro da cidade, onde tomava um cafezinho, depois comprava pão e queijo e voltava para casa, de terno branco e sapato bicolor.

Entendo meu avozinho, porque o morto fica desatualizado rapidinho. Das novas notícias nada saberei. Haverá crises mundiais, estréia de filmes, lindas músicas, e eu ficarei lá embaixo, sem saber das novidades. "Como morrer num dia assim, com um Sol assim?

a morte é variada. Não há uma só morte.Há um menu delas. 

As mortes são vividas de mil maneiras, ou melhor, não se vive a morte, óbvio, pois o que há são os últimos minutos no furor da tragédia, no olho do fim. Filosofar sobre a morte não dá em nada.
A morte ignora nossos méritos, nossos planos. Ela é simples, uma mutação da matéria

Só nos resta viver da melhor maneira possível até o fim. Há muitos anos, pegou fogo no edifício Joelma em São Paulo, torrando dezenas. Até hoje eu me lembro da foto em cores de um homem de terno, pastinha James Bond, agachado numa janela do 20.º andar, com o fogo às costas. Seu rosto mostrava dúvida: o que é melhor para mim? Morrer queimado ou me jogar? Ele se jogou.
Às vezes, quando tenho vontade de morrer, penso: e vou perder o espetáculo da vida? Por exemplo, escrevo agora diante do mar da Bahia. Vou deixar este grande céu azul colado no grande mar azul que bate em pedras negras há milhões de anos, com o Sol se afogando no horizonte?

Vou sair desta eternidade para aonde? Daí, penso: já estamos na eternidade, o universo "é" a eternidade e viver é ter o infinito privilégio de ver Deus, que está entranhado em tudo.

Sei que o "viver" humano é doloroso, por termos perdido a simbiose com a natureza, a paz dos pássaros. Mas, apesar desta dor – que nos deu a maravilhosa anomalia da linguagem
temos a chance de ver o universo de fora, estando dentro.

somos a consciência do universo que se pensa em nós. A gente acha que verá Deus quando morrer. Mas Deus é isso aí, os bichos. Ele está nos telescópios e é o hidrogênio que está em toda parte.

Viver é ver Deus, ali, na galáxia e no orgasmo, no buraco negro e no coração batendo. mas como a vida é em geral uma bosta social e política, no deserto do Iraque ou na miséria brasileira, imaginamos que Ele esteja em outro lugar.

Não. Está aqui, escrevendo comigo, movendo meus dedos, espelhando o mar da Bahia em meus olhos cansados. Por isso, quando me penso morto, eu, o único que não irei ao meu enterro, tremo de pena de mim mesmo. Deixarei de ver, para ser natureza cega.

Por exemplo, acho triste a lagoa azul e roxa no fim da tarde e eu longe, sem ver nada.  Não terei saudades de grandes amores, megashows do mundo de hoje, excessivo e incessante. .
Debaixo da terra, terei saudades de irrelevâncias, terei saudades de algumas tardes nubladas de domingo quando fica tudo parado, com os urubus dormindo na perna do vento, com o radinho do porteiro ouvindo o jogo, terei saudades do cafezinho,
Terei saudades dos raros instantes de alegria, sem medo ou culpa, de momentos de felicidade sem motivo

 mas não terei saudades do excesso de notícias, nada do mundo febril, só quietudes,  Cantando na Chuva,nada de grandes prazeres globais, só calmarias, o silêncio entre amigos  camaradagem de subúrbio Avenida Paulista de noite,
 pernas cruzadas de mulheres lindas e inatingíveis, terrenos baldios do subúrbio antigo, Paris (claro),

a timidez, a delicadeza, a compaixão, a súbita alegria de uma vitória, a Lua nova, um fecho de ouro  poema, Chaplin, Shakespeare

 terei saudades da fome de amor entre os jovens, da simpatia, do desejo nos rostos, e do Brasil, claro, do meu Brasil.
Há duas mortes principais no menu. a súbita e a lenta. Você, frágil espectador, qual delas prefere? O súbito apagar do abajur lilás, num ataque cardíaco, ou o lento esvair da vida, sumindo com morfina?

Eu queria morrer como, em pé, na janela, olhando a paisagem iluminada pelo sol da manhã. E, como ele, dando um berro de despedida.

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